Sou amor da cabeça aos pés.
A minha caminhada marcada e friamente calculada é um ciclo que sempre me trás até aqui, o meu sono é cansaço da realidade.
Não consigo só fazer rabiscos, apagar, escrever de novo, apagar mais uma vez, virar a pagina, arrancar. È preciso trocar o livro quando a historia já não interessa. è preciso continuidade. As paginas em branco estão cobrando para serem preenchidas, uns merecem introdução, outros dariam um livro inteiro.
Já repararam como é bom dizer “o ano passado”? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem…Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse “tudo” se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:
“Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados”.
Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos…
Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.
Mário Quintana.
“Darling, Se você soubesse como a minha vida ficou monótona; Tão sem gosto de nada. Às vezes tenho impressão que não vou poder mais agüentar nem mais 5 minutos sem te ver.
E ainda faltam tantos 5 minutos, meu bem.
Eu te adoro, te entendo, te venero. Tu és a minha vida, meu tudo. É diferente. Eu sou teu escravo, teu criado e tua cria. E tu és a minha namorada ilícita, esposa amantíssima e cidadã ímpar na terra”. Vinícius.
Veio manso, trouxe flores, arrumou a casa, preparou chás, limpou o que ainda sangrava e fez curativo no que o tempo não foi capaz de curar. Entrelaçou seus dedos nos meus, contou sua historia, entregou de mãos beijadas toda a doçura tímida que ainda lhe restava, ingênuo como se nunca tivesse doido antes. Ambos desacreditados de que pudesse acontecer outra vez, nem melhor, nem pior, só diferente, vendo esperança no que o outro perdera. Tentando nos convencer que a partir do nada poderia se ter tudo outra vez. Foi ai que pensei que nos entenderíamos, mesmo desistindo segundos depois. Não era capaz de suportar aquele olhar tão doce vindo de encontro ao meu sempre tão amargo e defensivo, não suportava que mostrasse a cada segundo que ficavam aos seus pés. O que sentia era tão tímido quanto eu, e até mais imaturo.
Tive vontade de abandonar longe de casa memórias tristes, tanto quanto velhos amores e tudo o que remetesse a eles, quis manter o que havia me tornado a partir deles. Estive disposta a me reconstruir de diversas formas, caso alguma pudesse dar certo pra nós.
Você corria na minha direção e de mim ao mesmo tempo. Aproximou-se além do que deveria, voltei alguns passos, já não sabia mais o que você disse, nem o que eu quis escutar. Já não sei o que esqueço e o que quero lembrar. Num momento quase tudo e no seguinte nada. Não é preciso querer ou não-querer, só é preciso saber a hora exata de não lutar contra. Fui acometida por uma Catalepsia quase real, fiquei imóvel durante dias, uma divida que precisava pagar a mim mesma. Me nego, mas voltava pra dezembro o tempo todo. Precisava parar de escutar teu nome, mesmo quando direcionado a outra pessoa que não você, precisava parar de descer a Augusta lembrando de cada dia, de cada pedacinho, querendo te encontrar a cada esquina embebida por outros tempos e dimensões, que agora me questiono se foram mesmo reais. Tentarei abrir os olhos, tentarei guardar um pouco mais de ar. Alguma coisa eu aprendi, só me resta descobrir o que.
‘Que na minha vida haja espaço, que o meu amor encontre outro destino’ pedia baixinho, sete vezes pra da sorte.
J.
Novas conversas, velhos amores. Velhas conversas, velhos amores. Outras conversas, os mesmos velhos amores. As mesmas conversas, sempre sobre os mesmos velhos amores.
Particularmente o plural neste caso tão pouco indica quantidade, e sim intensidade. Se é que me entende. Certo velho amor que equivale há muitos novos eu diria. E você é capaz de acreditar em mim? Há todos os novos-futuros amores, que ainda desconheço. E no pensamento só uma idéia reincide constantemente, olhar fixo no relógio como se uma magia, bruxaria ou qualquer uma dessas coisas sobre naturais – dessas que agente costuma acreditar quando todo o resto falhou - estivesse prestes a acontecer. ’volta volta volta volta’ ‘passo pra te pegar em 30 minutos e alguns meses passados’
Sempre pensei na continuidade da coisas como um bem. E hoje já não tenho tanta certeza se não era melhor ter parado no tempo. Continuidade… o mal disfarçado de bem em tudo e visse-versa.
Aqueles meses de 2009 os quais nunca estive tão presa em incertezas. Dentretanta instabilidade, inevitável não meter os pés pelas mãos. Alias, como sempre o fiz.
E você vinha intenso e descontinuo, havia deixado de ser eu mesma pra ser você.
Já não posso mais usar a desculpa de ser cedo porque não é, e nem de ser tarde porque você mesmo costumava me dizer que nunca é tarde quando se vale a pena insistir.
Você nunca vai queimar meu coração. É cedo e tarde demais pra pensar em auto-destruição.
Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera.
São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade das coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar e o ter amado muito, de amar menos.
Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro- e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco.É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante:ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir,dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus,
fica a suspeita de sinistros angúrios , premonições.Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem:qualquer problema , real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos- ou precauções-úteis a todos. O mais difícil:evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão
completamente quanto possível(santo ZAP!):FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se avida não deu, ou ele partiu- sem o menor pudor, invente um.Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o
seu dentista. emoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros,
juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se , e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques-tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire , a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas- coisas assim são eficientíssimas, pouco me
importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente nãose deter de mais no tema. Mudar de assunto,digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.
CFA.
(crônica escrita em AGOSTO de 1995, O ESTADO DE SÃO PAULO)
Encanta-me que sinta o que sente, ou minta tão desesperadamente. Talvez tenhamos sido quase especiais um para outro. Talvez tenhamos mesmo sido algo que hoje é nada.
Embora tanto, embora o quanto, embora tantos, embora o pranto. Embora… Sempre existe uma só pessoa, aquela que mantém o pensamento fixo o dia inteiro, e se pudesse ligaria no fim da noite, nem que fosse só para ouvir o silêncio. Ou melhor, precisava ver teu nome chamando no meu celular, subindo os 16 andares e tocando a campainha, esperando o inesperado, o que jamais deveria ser esperado. Perturba e conforta, acho que é isso mesmo o que faz o silêncio.
Não sei quando foi que nos perdemos. Alias, nem me recordo bem de quando nos achamos. Mas algo me diz que foi um achado mutuo, não foi só o um que achou o outro, o outro também achou o um. E combinamos, meio que pelas avessas, mas combinamos. O outro não gostaria do um, e o um também teria muitos outros. Decidimos juntar as feridas que á muito estavam abertas e sem previsão alguma para sutura. Talvez o erro tenha sido esse. Quando foi que quebramos a única promessa que fizemos? Quando foi que o oposto do contrato foi justamente o responsável por não ter mais teus dedos gelados acariciando os meus cabelos embaraçados?
Há tantas ruas pela gente, há tanta gente pelas ruas e há tanta gente entre agente. Não é a primeira vez que tu me escorres pelos dedos e depois volta mais maciço e palpável que nunca…
Não voltaria no tempo, não deixaria de fazer, não deixaria de ligar, e não deixaria de sentir. Deu vida a outro eu, e digo baixinho que prefiro o novo ao outro.
Ficar imóvel era um divida que eu pagava comigo mesma. Tive-te nas mãos, por entre todos os dedos. E nada. Nem sei mais o que quero lembrar ou esquecer.
Perdoe-me se tive que fazer de conta que nunca fomos nada um para o outro. Voltei alguns passos. Não sei se me fez mais bem do que mal, coloquei tudo na ponta do lápis, e tenho medo de saber o resultado.
Respira, respira, respira… e espera. È certo que uma hora agente se encontra outra vez, vai ser tudo igual e tão diferente. E ai que vai saber… Agente se perde de novo, só pra não perder o costume de se encontrar infinitas vezes, vai viver. Vai ver que é justamente por não sermos um par.
Assusta-me que justo agora você tenha ido embora.
Você, tão acostumado a reter as palavras que os lábios querem proferir. Mal sabes que os olhos funcionam como um espelho interno e eles dizem muito mais, tudo o que você sempre teve medo de dizer… Sempre soube o que quiseras me dizer durante esses anos todos, tolos. Quem seria o responsável por deixarmos nos perder tanto assim? Arrisco-me a dizer que fora culpa dos teus lábios retraídos e sempre tão inertes que levavam teus olhos para longe de mim, cada vez mais, a ponto de não mais conseguir enxergá-los e trouxeram para perto as fotografias, memórias e saudades, que não me servem de nada. E nós, que pensávamos não saber o desfecho dessa historia mal contada por lábios inertes e olhos de ressaca.
Não sei por que toda vez que escuto ou leio o nome, mesmo que seja direcionado a outra pessoa que não ele, o estomago começa a revirar e o coração dispara com as mesmas esperanças de sempre, de receber noticias suas. Devem ser os sinais que o corpo e a mente dão quando alguma coisa está errada, completamente fora dos eixos eu diria, como sempre foi.
Mas é verdade, só se percebe a queda quando se está no chão, e acredite eu já estive muitas vezes por lá e o que é pior, pelos mesmos motivos tolos. Sei que aprendi alguma coisa, só me resta perceber o que.
A vida tem muitos caminhos, inevitavelmente cruzamos alguns e cruzam os nossos também. Pessoas entram em nossas vidas e consequentemente saem também, na maioria das vezes isso acontece mais rápido do que deveria, e uma vez que os caminhos se cruzam, nunca estamos preparados para quando eles resolverem fazer uma curva rápida demais e descer rolando o abismo, destruindo tudo o que estiver pela frente, e dentro também. O tempo é responsável por curar as feridas e agente continua seguindo em frente, há outros caminhos traçados para serem percorridos. O que eu não esperava no meio de tantas quedas, idas e vindas era cruzar novamente o caminho dele.
Ocorre-me que nunca irei me cansar de percorrê-lo de fora a fora, diversas vezes, sempre com um sorriso bobo estampado na cara. Mesmo que seja cada vez mais difícil de acreditar, coisas boas também acontecem.
Olhando o passado de frente, nos olhos e ao invés da queda, o vôo.
“Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.
Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera.
Estranho e que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é?
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
A moça…ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar.
Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera?
E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará.
A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente.
Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.”
“Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia –qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Eu prefiro viver a ilusão do quase, quando estou “quase” certa que desistindo naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu “quase” tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros. Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor. Talvez loucura, medo, eu diria covardia, loucura quem sabe!”
É incrivel que algo faça tanto sentido como esse faz agora…
Se ele fosse outro seria eu.
Não sei explicar, talvez eu tenha fantasiado demais (como costuma acontecer sempre) e hoje eu sei o motivo de tanta insistência, tanta busca seguida de fadiga. È que ninguém nunca havia me perturbado como ele. (…)
Ora fixo e palpável ora distante irreal, e ele parecia transitar dentre dois estados completamente opostos com uma enorme facilidade, a mesma facilidade que tem de me dobrar, colocar no bolso e cortar São Paulo da zona norte a zona sul, me tem nas mãos.
E eu jurei não me envolver, e talvez por isso, naquele exato momento que eu o via dormir -tão lindo- ao meu lado, eu me envolvia cada vez mais. Quebrei minha única promessa e já podia imaginar que ela se encarregaria de quebrar todos os meus dias nos quais ele não estaria por perto -e cada vez mais distante.
Exclusividade é o que as pessoas procuram e sempre procuraram, por questões de costumes, educação, cultura talvez… ficam presas a ideia de terem de ser exclusivamente de alguém e visse-versa. È extremamente difícil lidar com uma ideia oposta a essa, eu sei, isso porque somos criados dessa forma á séculos e até então era o que eu buscava também. A liminar da causa foi tropeçar em você e em todas as suas coisas. Nesse dia e todos os subsequentes eu só busquei um sorriso, um gesto, um olhar, mesmo que fossem divididos em milhares, era sempre o bastante para quem recebia um pouco de ti.
E eu ainda estou lá perdida no seu bolso, junto com outras centenas de coisas, esperando que me pegue -mesmo que por engano-
Se eu fosse ele, ainda assim seriamos nós.
“Acho a coisa mais simples, mais definitiva, pra explicar o amor entre duas pessoas: gostava dele porque era ele, porque era eu.”
J.
“Cada momento de cada dia me quebra o coração em mais pedaços do que meu coração é feito, é claro, nunca pensei em mim como uma pessoa quieta, que dirá calada, nunca pensei nas coisas, tudo mudou, o vão que se encravou entre mim e minha felicidade não foi o mundo, não foram as bombas e prédios em chamas, fui eu, meu pensamento, o câncer de jamais superar, se a ignorância é uma benção, eu não sei, mas é tão doloroso pensar, e me diga, de que me serviu o pensamento, a que grande lugar o pensamento me levou? Penso e penso e penso, pensar já me levou para longe da felicidade muitas vezes, mas nunca ao encontro dela”
Queria sincera e verdadeiramente não me importar. Agente sempre acha que não se importa e fala para os outros que não se importa e o pior é que agente acredita mesmo que não se importa. Quando se acostuma é ligeiramente fácil não se importar com coisas como namorados, ex namorados, amores utópicos e não correspondidos, vícios, amigos, ou aqueles que você pensou que fossem seus amigos, estudos, trabalho e assim por diante. Mas o que ninguém te contou, é que depois da primeira vez, se torna tão fácil não se importar com esse tipo de coisa banal, por que agente se deixa levar pela rotina superficial e acaba dando valor a coisas que no fundo não tem valor algum. Não acho isso errado, e até sinto falta. Por que quando a corda arrebenta dos dois lados, é ai que você sabe o que realmente é importante, e dá com a cara no chão no momento que você descobre que você se importa, e muito.
J.
Ela e eu nos olhando um tanto desconfiados um do outro, sem muita intimidade para dizer coisas muito verdadeiras. Pelo menos não daquelas coisas que se diz como quem desabafa, sem preocupar-se com o impacto que poderá causar. O que me leva a crer que escrever verdades a meu respeito está fora de cogitação.
A verdade, no entanto, aqui não precisa necessariamente contar. Ou melhor, eu não preciso necessariamente contar a verdade. Não ignoro que você esteja aí me lendo, nem finjo que estou em alguma espécie de confessionário onde posso despejar o pior de mim para depois ser absolvido por alguma autoridade superior. Eu não acredito nesse tipo de absolvição. Acho, muito ingenuamente, que ela não vem de cima, mas de dentro.
Mas continuo escrevendo, matando lentamente com cada palavra o espaço em branco da folha. O problema é que, como na vida, quanto mais palavras você jogar na folha, mais espaço vazio surge abaixo. Será que quanto mais se fala mais silêncio se cria? Pensando bem, não pode ser assim. Porque quando tentamos nos expressar, queremos ser compreendidos, ou quem sabe, na pior das hipóteses, ouvidos. Tudo isso pressupõe o ato comunicativo. Eu digo, você ouve, comenta dizendo que sim, ou que não, ou que compreende. Até quando não comenta já está dizendo que desaprova ou mostrando sua indiferença.
Outro dia sentei para escrever algo sobre uma ideia que me pareceu interessante quando eu a tive. Depois de dois parágrafos, percebi o tom de ressentimento que estava aplicando ao texto. Um ressentimento absolutamente inocente — não sei se pode haver inocência em ressentimento, talvez seja mais adequado dizer que ele era totalmente inconsciente. Foi então que eu entendi: o ressentimento é algo muito prolífico. Ele tem a capacidade de motivar o indivíduo a produzir, trabalhar, relacionar-se, viajar, tomar decisões importantes, atitudes há muito adiadas. Tudo acontece fácil e sem hesitações.
Naquele dia, eu reli o que havia escrito e me transformei por alguns instantes no leitor desconfiado que geralmente sou. Que desagradável pode ser olhar-se de longe. Mas também é necessário. Não precisei publicar em lugar algum. Minha catarse se fez na releitura. Bom seria se tudo na vida fosse como escrever um texto e pudéssemos ter a chance de revisar nossos atos antes de soltá-los no mundo. Tudo que estivesse fora da norma seria automaticamente corrigido e ninguém precisaria ver nosso arrombo de incorreção.
A realidade, no entanto, não é assim. Eu mesmo já devo ter revelado mais de mim nessas linhas do que gostaria e depois que isso for lido, não há o que revisar. Importante mesmo é não deixar de.
Alex.